“Você não está sendo solidário com a minha dor…”

Na quarta vez que fui naquela casa atender sua filha, a nossa conversa aconteceu na cozinha. Nós estávamos em pé e ela (a mãe) estava cortando e lavando os legumes para o preparo da sopa da filha, uma mulher de quarenta e poucos anos, que padecia de um câncer de mama com metástase para o sistema nervoso central.

Ela atentamente caprichava no preparo da iguaria que alimentaria a querida filha. Apesar de tanto amor e carinho desprendido pela mãe, a sonolência derivada da progressão da doença na filha, turvava a relação entre elas, e a mãe experimentava um amor de mão única, mas, não abdicava do empenho e dedicação dispensados durante às 24 horas dos dias apressados e ininterruptos…

Na mecânica do preparo dos alimentos, entre o rito do corte dos legumes e das carnes, o cuidado com o tamanho dos pedaços, a atenção com a panela no fogo, o não aproveitamento do pedaço de legume que cai no chão e a lavagem substantiva dos pedaços que caem dentro da pia, fomos entabulando a conversa:

Ela: – É meu filho, está cada vez mais difícil, agora ela passa o tempo todo dormindo, nem tenho feito os exercícios com ela…

Eu: – Sim, claro, não se preocupe com isso. Agora, nesse momento, temos que ter cuidado com a mobilização e posicionamento no leito com ela. A senhora está sentando-a para oferecer as refeições?

Ela: – Sim, estou, pode deixar que sigo direitinho tudo aquilo que você me ensinou…

Eu: – Que bom, dona Almerinda.

Ela: – Sabe como é né, doutor? A minha filha não tem mais mente, “a mente” dela foi embora…

Eu: – Como é, senhora?

Ela: – É isso, a cada dia ela está mais longe, depois que essa doença subiu para a cabeça, tirou a minha filha de mim. Mas, eu tenho fé em Deus, está na mão dele e se Ele quiser, devolve minha filha para mim…

Ensaiei uma pausa, respirei fundo e fiz a pergunta que se agitou na mente que ainda é minha, e quase balbuciando, perguntei.

Eu: – E se Ele não quiserrrrrrr…?

Estávamos no momento do refogado. Ela automaticamente apressa-se ao movimentar a colher de pau, jogar os legumes dentro e tampar a panela de pressão, e dispara uma resposta revestida duma esperança mobilizadora que faz qualquer cristão tomado por um “fiapinho” de fé, arrepiar.

Ela: – Eu não conto com essa possibilidade! Para mim só existe uma, a cura! Não posso pensar em outra possibilidade, até porque preciso proteger a minha saúde mental. Choro… eu acredito no milagre, eu sei que a situação dela é difícil, só Deus, eu acredito no meu Deus!

Eis o mistério da fé, frase muito pronunciada nas homilias das igrejas católicas. Como mexer nesse emaranhado de emoção, fé, esperança e vida, e muita vida? Cada vez mais, me convenço que os profissionais que trabalham na assistência domiciliar têm algum privilégio em fazê-lo, pelo menos deveriam saber disso.

O que dizer ao coração dessa mãe que sangra ao ver sua filha sendo minada pelo avançar da doença? O que dizer a essa mulher sofrida que gerencia o cuidado da filha sozinha? Pois, não pode contar com seu outro filho, não conta com o filho adolescente da paciente de pai separado, a paciente não tem pai vivo ou por perto, e ela não pode contar também com seu companheiro de anos de convivência, que segundo ela, ao invés de ajudar, só piora as coisas. “…Você não está sendo solidário com a minha dor…” Frase dita ao companheiro, por conta das reclamações relacionadas ao fato dela estar exclusivamente dedicada ao cuidado com a filha. Em sua fala reconhece também que está doente, mas nem pode pensar nisso…

Se ela estiver doente, ou pelo menos se reconhece assim, dentro de todo esse complexo social do adoecimento, o que mantém a dona Almerinda em pé? Será que é a fé, que para muitos entendidos ela estaria num momento de negação em relação à gravidade da doença da filha e que estaria operando com uma fé cega respaldada num pensamento mágico e que contaria com um desfecho miraculoso? Sei lá, pode ser, não sei, não sei mesmo. E se fosse só o amor que a estaria sustentando?

Fico muito pensativo nas idas e vindas a essas casas, olha que já faço esse trabalho há mais de uma década. No caso em tela, como negar um milagre a uma mãe que foi fecundada, que recebeu o concepto, que gestou, sofreu toda a transformação no seu corpo, que amamentou e que ouviu durante nove meses que gerar uma vida é um MILAGRE?

E, que a mulher é uma escolhida pelo fato de possibilitar a vinda de outra vida e que o amor de mãe é o mais genuíno que já existiu e que o seu amor também tem o dom de curar. Como ser leviano em achar que o amor de mãe não pode salvar as vidas de seus filhos?

Como descontruir isso no imaginário das mães? Como dizer para elas que só possuem o poder de conceber o milagre da vida, e que não tem nenhuma autoridade ou influência em salvar seus filhos do também milagre do fim da vida? Para mim, é plausivelmente humano entender todos esses mecanismos operados pelas mães e pais em salvaguardar a vida de seus filhos, que são os resultados dos milagres dos encontros e por extensão, os milagres da vida!

A conversa termina com ela relembrando… Ah, minha filha era muito alegre, era ela que animava a casa, ela adorava festas, organizava as festas, era muito bagunceira. O que mais sinto falta é dos passeios que a gente fazia. Ela era doméstica lá pra baixo (Zona Sul), aí ela tinha uma patroa em Botafogo, que de vez em quando ela ia fazer faxina em seu consultório e me levava, era muito divertido. Depois que acabava a faxina a gente ia passear na praia, não tomava banho não, era só para olhar o mar…

Ainda bem que dona Almerinda vai poder buscar essas boas lembranças da mente, que ainda é sua, do convívio com a filha amada. E, que o jeito simples da vida que elas levavam, porém com muito amor, possa solidificar a estrada da mãe sofrida, contudo destemida.

A terceira vez que estive nessa casa era semana de Natal, estimulei muito dona Almerinda a montar a árvore natalina, uma vez que estava desestimulada com toda a situação. Na primeira e na segunda vez ue estive lá, pude caminhar com a paciente pela casa, quando ainda, a mente dela estava entre nós.

Muito agradecido por essa vivência, dona Almerinda.

Ernani Costa Mendes
[Fisioterapeuta INCA/Ministério da Saúde. Doutor em Ciências ENSP/Fiocruz]

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